quarta-feira, 28 de maio de 2008

Pesquisa com células-tronco...

Hum, espinhoso.

Sim ou não? Sim, eu espero que passe essa lei, até o fim do dia. Os embriões estão ai, já irrecuperáveis, não utilizá-los é non-sense.

Como bem me lembraram, houve uma época em que estudar cadáveres era algo anti-religioso e anti-moral. A ciência avançou depois que estudos foram liberados nesse sentido.

E o Estado é laico (todo mundo votando no Gabeira pra prefeito aliás, ouviram, crianças?), antes de mais nada.

Mas...

Um medo religioso é, até onde entendo, o precedente que isso abre, indo em direção da legalização do aborto, amplo e irrestrito, que é outro assunto pra um outro dia. Ou seja, por trás disto está a noção de solidariedade contra quem não poderia, de forma alguma, defender-se (e que, provavelmente, está a raiz da noção contra o estudo em cadáveres d'antanho: a ressurreição dos mortos nos Últimos Dias, etc.; e como fica, se cadáveres são conspurcados?. Enfim.). Ou que abortos - legalizado ou não - possam suprir uma pequena indústria em prol da pesquisa das células-tronco, algo nesse sentido.

E ai eu não consigo deixar de pensar que a questão não é religiosa. É de afeto. De solidariedade, a quem menos pode se defender nesse mundo. E que, se temos que adotar uma postura neutra - amoral? - quanto à questão científica, eu pergunto: por que a vacinação em massa, especialmente a infantil? Não seria melhor que seleção natural fizesse o seu serviço mediante a exigência do momento, em prol da nossa Evolução?

UPDATE (30/05/08) - E acabou que o STF aprovou a lei de pesquisas com células-tronco. Parabéns ao país, por se dar a chance de obter seu lugar em pesquisa de pontas parabéns ao Supremo pela decisão e pela veiculação do debate, que de nível maior talvez não possa ser; parabéns aos doentes, que agora poderão dispor de mais uma chance aos seus males; parabéns se não a todos nós, um bom pedaço ao menos, por empurrarmos um pouco mais os limites da luz em direção às trevas.

4 comentários:

Daniel disse...

Eu lamento que tenha demorado tanto, mas ao menos agora está aí.

Quanto ao aborto, eu discordo. É uma questão de declive escorregadio, como se diz: é possível que fetos abortados sejam canibalizados para tais pesquisas? Talvez sim. É também possível que pessoas sejam seqüestradas para abastecer o tráfico de órgãos.

Mas uma coisa não tem necessariamente a ver com a outra.

PS: Eu continuo frontalmente contra a prática do aborto, mas favorável à legalização da mesma. Vai entender :-P

Luiz Felipe Vasques disse...

Antes tarde do que nunca? O problema é que os grupos religiosos já se preparam para a valsa legal em torno das emendas constitucionais.

E não, uma coisa não tem necessariamente a ver com a outra, é verdade. Mas isso está longe de encerrar a questão: jurisprudências, se não estou me enganando com o legalês, se montam em torno de paralelos e precedentes. Todo o cuidado é pouco.

Daniel disse...

De qualquer forma, uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa, como já diria o filósofo. A lei que passou agora trata de células-tronco embrionárias, nada a ver com fetos abortados.

Leio hoje na UOL que talvez se discuta a questão do aborto de fetos anencéfalos, mas isso são outros quinhentos.

Luiz Felipe Vasques disse...

Explique isso à bancada religiosa: há uma alma para cada óvulo fecundado.

Penso, entretanto, se trâmites legais tendo isto como base não seriam inconstitucionais por princípio, exatamente por causa da separação da religião e Estado. Já seriam noções torpedeadas de princípio.

O problema, vejo, é que a noção de que a vida começa - e tal não é definido por lei alguma, apesar do 'todos terem direito à vida' - está exatamente no óvulo fecundado, que é a 'novidade' dentro do organismo (ou fora) de uma mulher. É uma reação viável de acontecer, mas que tem que ocorrer uma condição específica para que ocorra. Acreditar que é nesse momento que a alma se insere é 'playing safe' no final das contas (e acredito que tb o seja para o Direito), a própria Igreja mudou de idéia duas ou três vezes ao longo de todos esses séculos, essa noção é do Século XIX.