sábado, 22 de maio de 2010

Downey Downey

Robert Downey Jr.: heróis com mais ou menos cavanhaque, o importante é se divertir!

Assisti, no intervalo de seis dias, Sherlock Holmes e Homem de Ferro 2. Sensacionais, sensacionais. Robert Downey Jr. deve estar se divertindo horrores. Meu medo é que seja só isto, vindo dele, daqui por diante: encarar o narcisista insuportável cheio de tiques e que todo mundo, forçosamente ou não, adora. Não há tantas diferenças assim entre seus Sherlock Holmes e Tony Stark - sendo franquias em desenvolvimento, com continuações previstas.

Ambos os personagens têm problemas com algum vício (Stark, ao menos nos quadrinhos). Ambos foram criados sendo gênios em seus campos, e, embora Holmes aqui tenda a ser um grande recluso com problemas de se relacionar com pessoas, Stark simplesmente ama a atenção; ambos têm um ego à altura do talento. Falam rápido, atropelam outras falas, ou a si mesmo, vão do maior personagem que domina a cena para alguém que você tem pena em segundos, daí para um cretino completo, e de novo.

Typecasting: não é diferente de atores de grande talento como Al Pacino, que parece que só fala dando bronca, ou Robert De Niro, idem, mafioso canastrão. A máquina devora.

Tirando isso, ambos os filmes são imperdíveis: Sherlock Holmes reinventa um pouco o universo de Doyle, e entendo que alguns tantos puristas reclamaram. Não poderia dizer, li poucos livros de Sherlock Holmes e há muito tempo, e a imagem que eu tenho - e decerto muita gente, inclusive os puristas - do detetive é a de Basil Rathbone interpretando-o em 14 filmes em preto e branco, com o Dr. Watson sendo um simpático velhinho. Rathbone era a dignidade à toda prova, a calma intelectual certamente apropriada para o Maior Detetive do Mundo - um inglês, claro, em plena época vitoriana, na Inglaterra industrial e científica - poder resolver seus casos intrincados. Corre-corres e explosões são ungentlemanish, se é que essa palavra existe.

"When you become the character you portray, it's the end of your career as an actor."
Basil Rathbone, o eterno Sherlock Holmes.

E ai vem Guy Ritchie.

Falando no que, aliás. Filmes totalmente anti-fidalguia inglesa, como Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes e Snatch - Porcos e Diamantes, mostram uma Londres que nada tem para turista ver, uma Londres de marginais, mafiosos violentos, pequenos golpistas, ciganos, contrabandistas, mercenários russos, todos com sotaques e excentricidades - há tiradas inesquecíveis - de modo geral. Apesar destes dois filmes seguirem uma mesma fórmula - na minha opinião, consagrada em Snatch - eles são divertidíssimos, com diversas linhas de narrativa correndo em paralelo até um fim em comum, em que os protagonistas - caso sobrevivam - não têm bem certeza do que diabos acontece. Filmes para se ter na coleção. Um casamento que parece que enterrou sua carreira depois, ele tenta ressurgir com Revolver, que segue a mesma linha, mas sendo um drama, e não a comédia de antes, e depois Rocknrolla, que parece que é ele imitando a si mesmo. Divertidinho, mas sem o brilho dos dois primeiros filmes.

- Why do they call him Bullet-Dodger?
- Elementary, my dear Watson. Because he dodges bullets.

Quando eu soube que ele iria dirigir o próximo filme de Sherlock Holmes, titubeei, exatamente pela imagem rathbonesca na cuca. Mas, que diabos, vamos ver, eu reservo meus purismos para outras catástrofes. E achei resultado foi excelente: é a Londres de Ritchie, ainda que verde, digital e vitoriana. Os capangas excêntricos estão lá, assim como as cenas de luta, violentas e sujas, agora com o auxílio de modernas câmeras digitais. O humor rápido, cínico e ácido também.

Em pé de igualdade de Downey está Jude Law, elevando o Dr. Watson a um pé de igualdade. Eu não pude deixar de lembrar da série House, em que o protagonista - inspirado parcialmente em Holmes, aliás - tem também um talentoso porém humanamente limitado amigo/sidekick, o dr. Wilson. Entretanto, Law inventa um Watson o qual "sidekick é o cacete" e que não leva desaforo pra casa, embora a relação conflituosa aqui lembre muito a dos personagens desta série. O resto do elenco não faz feio, mas também não se destaca particularmente: Rachel McAdams fazendo uma Irene Adler mais voluntariosa e Mark Strong sendo um vilão cujo aspecto lembra muito o Drácula de Bela Lugosi, com uma gola alta do capote fazendo a capa do velho Conde, e os cabelos puxados pra trás - hum... e que volta dos mortos. :)

A conclusão da história, já com tudo engatilhado para uma sequência, mais do que mera sugestão, encerra muito bem. Fãs de Sherlock Holmes ou casuais interessados, assistam.

***

Yes, we did!

Em Homem de Ferro 2, temos uma sequência muito boa, porém eu ainda acabo preferindo o primeiro. Em inglês, esta crítica aqui levanta questões apresentadas que foram mais contadas do que demonstradas (o que os americanos chamam de "show, don't tell"), e por que isto enfraquece o filme. Achei uma crítica interessante, vale à pena ler.

Mickey Rourke e Sam Rockwell jogando pelos inimigos estão ótimos, mas Gwyneth Paltrow me pareceu sobrando, especialmente com a aquisição da dona moça ai de baixo, no papel de Natasha Romanoff, a Viúva Negra, personagem da Marvel, originalmente espiã desertora soviética e, é claro, Action Girl residente. A "Pepper" de Paltrow se resume à mocinha indefesa que, por mais que seja parte muito importante do drama de Tony Stark em não ser Tony Stark, coisa que ele aliás ama mais do que a própria vida... ela ainda precisa ser resgatada.

Helloooo, you again!

Os narcisistas irrecuperáveis - todos eles - de Robert Downey Jr. nos dão ótimas horas de entretenimento de primeira linha, ótima diversão, para fãs e casuais. Novamente, espero que sua carreira não se resuma a isso. Mas que venham as sequências!

3 comentários:

Daniel "Gargula" Braga disse...

Estou lendo o cânone de Sherlock Holmes e lhe digo que tanto ele quanto Watson estão preparados para qualquer briga. Existem sequências nas quais Watson inclusive fica impressionado com a capacidade física de Holmes! E o filme foi muito bom sim!

Homem de Ferro continua contando uma história e ao meu ver fez seu papel com maestria. A opção agora não é somente a história de um personagem mas a de um universo inteiro! Isto deve ser levado em consideração!

No mais, gostei dos dois filmes!

Luiz Felipe Vasques disse...

Sim, deve, vc está corretíssimo! Não são mais filmes separados, dá pra ver um projeto de algo maior tomando forma.

E Holmes, também falam muito isto. Há mais ação nos livros de Doyle do que estamos acostumados a nos lembrar.

Sara disse...

Eu acho que eu gostaria de fazer parte deste tipo de coisa, espero que em algum momento têm a oportunidade de fazer se você encontrar onde fazê-lo em Butanta