quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Criacionices...

Lá no Escrevinhamentos, um artigo sobre o 'debate' entre o ensino do Criacionismo, Design Inteligente (sic) e Evolucionismo me ajuda a salvar meu mau humor. Obrigado, Victor.

Questões básicas de porque isto não pode ser levado a sério, e malditos sejam os políticos que o permitem, em nome de sua conveniência:

1) Deus é incomprovável e indescomprovável. Portanto, não é matéria a ser abordada como científica. A Teologia se define como a ciência (a respeito) de Deus e, hoje em dia, aproxima-se muito mais da filosofia ao ponderar sobre a condição humana e sua relação com o divino do que qualquer outra coisa. Nada pode ter a ver com biologia, ou o material, de uma forma geral. É como querer classificar o índice pluviométrico ao longo de um período usando um contador gêiger: método e instrumentação inadequados ou inexistentes.

2) A Teoria da Evolução, se apresenta falhas com o passar das descobertas, deverá quando não mais se sustentar revista ao ponto de sua reformulação e, se assim preciso for, substituída por alguma outra - é o processo natural que ocorre com a ciência. Dar por garantido que será substituída é outra coisa e nada tem a ver com a mentalidade científica. Uma teoria precisa ser descomprovada antes.

3) a Teoria da Evolução não procura explicar, comprovar ou descomprovar Deus. Não satisfeito em não ser sua matéria de estudo, vide 1).

4) Quando eu era criança pequena lá em Barbacena, eu ouvia que o Brasil era o maior país católico do mundo. Hoje em dia o termo politicamente correto é o maior país cristão do mundo. Politicamente correto ou não, aqui se vê o desejo de abranger em uma definição um número maior de pessoas - são tempos da bandeira da inclusão, afinal de contas.

Ora, como então, adotar como alternativa ao ensino da Teoria da Evolução o Criacionismo e/ou Design Inteligente (sic) no sistema de ensino, especialmente o público, dentre desta bandeira? Afinal de contas, a visão 'genesiana' é uma visão somente. E os nossos umbandistas, candomblés, budistas, cada um dos nossos grupos indígenas e suas subvariações - não têm eles também direito a ver suas teorias alternativas sendo ensinadas? Não nos esqueçamos de nossos espíritas que, a partir do Século XIX, foram os que mais se empenharam em dar uma aproximação científica ao fenômeno sobrenatural: porque suas teorias científicas também não seriam ensinadas?

A resposta é simples: vide 1) e, além do mais, obviamente que não haveria tempo para tudo isto e mais o ensino das matérias Português, Matemática, etc. etc. etc. Bem, sendo assim, vamos para a neutralidade, tão laica quanto deve ser o Estado: passemos a ensinar somente teorias realmente científicas.

A visão judaico-cristã da origem do mundo se baseia no primeiro livro da Bíblia, a Gênese. Entretanto, já repararam que nunca tem nenhum judeu falando algo parecido com o Criacionismo ou o Design Inteligente (sic)? Até onde me garante quem conhece a matéria bem melhor do que eu, para os judeus a ciência a cada dia tão somente nos ajuda a desvendar um pouco mais da complexidade - adendo meu: portanto, beleza - da Obra. Period. Maturidade é isso ai. Aprendam, crianças.

5) O que nos leva a um outro probleminha, para quem realmente se importa com uma devida educação cristã. "Eu só acredito vendo" foi o que São Tomé disse, quando os seus camaradas discípulos vieram lhe contar que Jesus havia ressucitado, e já tinha aparecido para o pessoal em encontros na surdina, dado à perseguição romano-israelense de então. Na oportunidade que teve de encontrar Jesus, este respondeu, "E ai, bacana, o que é que você ia dizendo? Pois é, você viu e acreditou. Feliz aquele que não viu, mas acredita."

Tibieza é o nome do pecado de São Tomé. O da fé vacilante. A que requer provas. Todo este discurso cada vez mais bem elaborado do Design Inteligente (sic) ou de seu primo da roça, o Criacionismo, escondem uma dúvida cada vez maior. Falta aos seus proponentes a coragem de vasculhar suas próprias motivações, e de encarar esta dúvida.

Agora, o que não pode, é sistematizar a divulgação esta dúvida às massas: não deixa de ser que nem a pornografia, que promove a luxúria.

4 comentários:

Barone disse...

Opa Felipe. Interessante este seu adendo sobre as demais religiões. No entanto, o debate parece estar mais focado em outro ponto, no direito de um colégio, digamos, evangélico ou católico, repassar a seus alunos as noções do criacionismo. Penso que, sim eles tem este direito. Mas me questiono sobre o que isso implicará para a formação destes estudantes? Outra questão, esta mais problemática, é se estes colégios têm o direito de ensinar o criacionismo na aula de ciências, como verdade científica. Partindo deste pressuposto, seria lícito, então, termos no Brasil uma escola baseada no fundamentalismo muçulmano ensinando que adúlteras devam ser apedrejadas? É um tema muito delicado. Particularmente acho que religião se faz em igrejas, templos ou em casa. Misturar religião e educação é algo muito perigoso e excludente.

Luiz Felipe Vasques disse...

Cara, eu acho que não... no sentido em que eu tive um ano em colégio religioso e não cheguei nem perto de qquer aproximação neste sentido.

Não me parece que uma instituição séria como o Colégio São Bento, aqui no Rio, que se não me engano não aceita meninas como alunas, de tradicionalista que é, ensine esta aberração. Aliás, da experiência que ouço de quem este em colégios católicos se bobear ainda mais conservadores, do tipo que não ensinava catecismo às criancinhas - mas dogma e teologia e um terceiro lance que não lembro como matérias em horários diferentes -, nunca sequer se ouviu algo parecido como Criacionismo dentro de suas paredes.

Barone disse...

Isso é um bom sinal então. Mostra que esta aberração está isolada aqui e ali.

felipe disse...

Por enquanto, velho. Por enquanto... temos que estar alertas, vigilantes.